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Para as novas gerações, parece algo tão distante. Para os mais velhos, parece
que foi ontem. Em tempos de programas de calouros, Fama, Raul Gil, etc,
acreditar que houve um tempo em que o país inteiro literalmente parava para
acompanhar pela TV os novos talentos da nossa música - como se fosse uma final
de Copa do Mundo, com direito a discussões acalouradas nas mesas de bar e
apostas - parece difícil.
Mais difícil ainda é acreditar que esses mesmos artistas, iniciantes na época,
hoje são monstros sagrados da nossa MPB (sigla, aliás, cunhada na época dos
Festivais por Solano Ribeiro, produtor dos primeiros festivais e autor do livro
"Prepare seu coração") e que, mesmo iniciantes, gravavam discos por grandes
gravadoras (a Philips, atual Universal, servia de escoadouro para quase todos
eles). Outros artistas da época, porém, podem hoje ir em paz à padaria da
esquina quando, na época, eram parados para dar autógrafos na rua.
Muitos desses artistas literalmente reinventaram nossa MPB com rupturas de
estética, fusões de rítmos e novos valores. Nessa época, cantores e
compositores como Geraldo Vandré, Tuca, Maysa, Sérgio Ricardo, Raul Seixas,
Hermeto Paschoal, Antônio Adolfo, Tibério Gaspar, Chico, Caetano, Milton
Nascimento, Fernando Brant, Toninho Horta, Murilo Antunes, entre outros, deram
um novo rumo para a música brasileira.
Os Festivais também foram palco de
vários episódios marcantes, como Elis
imitando Lennie Dale e girando como hélice em "Arrastão"; a guerra entre
"A Banda" e "Disparada"; a sonora e injusta vaia que Nana Caymmi levou ao
defender "Saveiros", de Dori e Nelson Motta (que não sabia o que é um saveiro);
o ingresso da guitarra na MPB com Gil e os Mutantes em "Domingo no Parque";
Jorge Ben fazendo tudo mundo cantar "Fio Maravilha" na voz de Maria Alcina;
Sérgio Ricardo dando uma de Pete Townshend, quebrando o violão e o jogando no
público com "Beto Bom de Bola"; Caetano Veloso bancando a Molly Bloom em seu
discurso delirante em "É Proibido Proibir" e o fim do romantismo, com o
endurecimento da ditadura, já na década 70.
O NASCIMENTO
A chamada Era dos Festivais nasceu em São Paulo em meados da década de 60,
quando também houve uma migração de artistas cariocas para a capital paulista.
Nesse mesmo tempo, já havia gente nova fazendo música por lá: Walter Wanderley,
Ana Lúcia (que gravaria a primeira versão de "Samba em Prelúdio" em dueto com
Vandré), Claudette Soares e César Camargo Mariano. Logo, eles e muitos outros
seriam capitaneados por Solano Ribeiro, Moacir do Val e Franco Paulino, num
projeto chamado Tardes da Bossa Paulista.
Com o sucesso, o programa virou Noites de Bossa. Certo dia, José Bonifácio
Sobrinho (o Boni), que trabalhava na extinta TV Excelsior, convidou Solano para
trabalhar como coordenador de programação da emissora. Com a chance de produzir
um programa, ele convidou todos para o cast do Noites da Bossa Paulista. Com o
tempo, o pessoal do Rio foi convidado a integrar o programa que, então, virou
Primavera Eduardo É Festival de Bossa Nova (por causa do patrocínio das Lojas
Eduardo). Foi quando uma certa gauchinha - direto da Vila IAPI para o estrelato
- chamada Elis Regina cantou pela primeira vez num teatro paulistano.
Ao mesmo tempo em que a Excelsior apresentava as suas noites de Bossa, o
conhecido disk-jóquei Walter Silva (o do Pick-Up do Pica-Pau) lotava o Teatro
Paramount. Mas, antes dos shows, havia ainda a idéia de realizar um festival,
como nos moldes do Festival de San Remo, da Itália. O problema era saber como:
no modelo italiano, gravadoras e editoras orientavam o Festival. Como os selos
daqui não aceitariam apostar em gente iniciante, o que fazer, abrir o certame
para todos? Foi a única solução. Veio uma enxurrada de gente. Com tal demanda,
nascia o I Festival de Música Popular Brasileira, realizado na TV Excelsior, em
1965. Foi um sucesso absoluto.
A canção vencedora do primeiro Festival foi "Arrastão", de Edu Lobo e Vinícius
de Moraes. Mas a grande novidade seria a novata Elis Regina. Por conta de sua
inusitada atuação no palco, Elis ganharia o prêmio de melhor intérprete daquele
ano. A Excelsior insistiu em produzir uma segunda edição do festival no ano
seguinte. O vencedor foi a marcha-rancho "Porta-Estandarte", de Geraldo Vandré
e Fernando Lona, defendida por Tuca e Airto Moreira. Vandré já era famoso por
interpretar "Sonho de um Carnaval", do desconhecido Chico Buarque, para o
festival de 1965.
À medida que os festivais cresciam, o pessoal engajado dos festivais
(principalmente os compositores) ia tomando a bandeira da música autêntica e de
temática social. Passaram a comprar briga com a turma da Jovem Guarda, que só
queria saber mesmo era de mandar tudo pro inferno. Eram chamados de "alienados"
- expressão pejorativíssima, então.
Já a Record, depois de realizar o II Festival e carreada pela polêmica entre "A
Banda" e a "Disparada", obteve tanto sucesso de audiência que virou uma grande
emissora, fato que lhe permitiu a criação de outros programas, entre eles, o
Jovem Guarda com Roberto Carlos (para a emissora, a briga entre enragés e
roqueiros era altamente lucrativa) e o Bossaudade com a "Divina" Elizeth
Cardoso e Cyro Monteiro (e sua caixinha de fósforo). A Record passaria a ser
líder de audiência e a "Emissora dos Musicais". Os programas estavam em
evidência, a audiência nas alturas.
SUCESSO ABSOLUTO
Em outubro de 1967, a TV Rio apresentou o primeiro Festival Internacional da
Canção (FIC) que, logo na estréia, revelou o jovem Milton Nascimento, segundo
colocado com "Travessia" (Milton Nascimento e Fernando Brant). Perdeu para
"Margarida", de Gutemberg Guarabira, defendida pelo grupo Manifesto, e que,
comparada com a música de Milton, caiu no esquecimento do público. Em terceiro
chegou "Carolina", de Chico Buarque, interpretada por Cynara e Cybele, do
Quarteto em Cy. Mais modesta, a Tupi fazia o Festival Universitário e,
posteriormente, a Feira Permanente da MPB, com outro formato. A partir de 1968,
o FIC seria transmitido pela TV Globo.
O ano de 1967 foi, certamente, o auge da Era dos Festivais, em termos de
qualidade musical. O III Festival de Música Popular Brasileira foi ganho por
"Ponteio", de Edu Lobo e Capinam, defendida pelo próprio Edu, junto com Maria
Medalha e Quarteto Novo. Logo atrás, vinha "Domingo no Parque". Gil havia
colocado guitarras em sua música, depois de um tímido quinto lugar no festival
de 1966, com "Ensaio Geral", interpretada por Elis Regina. Logo atrás, vinham
"Roda Viva", de Chico Buarque, cantado por Chico e a MPB-4.
Nesse mesmo ano, Caetano Veloso viraria campeão moral com "Alegria, Alegria",
se apresentando com uma marcha-rancho com guitarras e bateria - os Beat Boys -
da mesma maneira que Gil com os Mutantes. Na verdade, ambos haviam mudado seu
estilo musical radicalmente, após terem descoberto uma fusão natural entre o
rock e o som folclórico à moda brasileira, após terem "descoberto" o
psicodelismo dos Beatles, amálgama que seria a raiz do Tropicalismo. Ao mesmo
tempo em que o rock parecia fazer entropia na MPB, a Jovem Guarda aparecia no
FIC na figura de Roberto Carlos. Com elegância e no melhor estilo
"chicobuarquiano", o Rei interpretou "Maria, Carnaval e Cinzas", de Luís Carlos
Paraná, uma mistura de "Zelão" com "Sonho de um Carnaval". Não levou (levaria o
troféu com "Canzone Per Te", em San Remo) mas também entrou para a história dos
festivais. Havia tanta qualidade que muita coisa boa não se classificou: a
belíssima "Eu e a Brisa", de Johnny Alf, não passou da primeira fase.
CAMPEONATO
Nessa época, a divisão entre a preferência das canções defendidas tinha clima
definal de campeonato de futebol. O exemplo de Sérgio Ricardo foi simbólico.
Farto de ser vaiado, a ponto de não poder tocar, ele interrompeu o público,
quebrou o violão e jogou seus pedaços na terceira fila do teatro. Roberto
Carlos também foi vaiado, mas tinha o aval das suas fãs histéricas, que
mostravam a língua para o público "engajado". Se a coisa não era natural, já
que havia a preferência do cantor às vezes, algumas gravadoras passariam a
fomentar a torcida. A gravadora de Jair Rodrigues, por exemplo, "contratou" uma
torcida para aplaudir "O Combatente".
Como a música também não foi classificada, o pessoal começou a vaiar quem
aparecesse. A vaia de "Beto Bom de Bola", por sua vez, era mais por antipatia
mesmo. Ninguém entendeu bem a música e a platéia não via nada de mais nela.
DITADURA
A partir de 1968, o clima no Brasil não era favorável para quem queria fazer
música de protesto. A patrulha agora era de direita, e a censura espreitava
cada gesto brusco. A fórmula foi alterada: criou-se o júri popular e o
especial. No IV Festival, em novembro-dezembro, na Record, as vencedoras foram
"Benvinda" de Chico Buarque, com o autor interpretando-a, e "São Paulo Meu
Amor", cantada e defendida por Tom Zé. Porém, no Festival da Globo, o produtor
Renato Corrêa e Castro colocou Gilberto Gil cantando a surreal "Questão de
Ordem", Caetano Veloso com "É Proibido Proibir" e a "Para Não Dizer Que Não
Falei das Flores", na eliminatória paulista.
A apresentação no Teatro Universitário da PUC foi caótica. Gil fundiu a cuca
do júri, Caetano tomou as dores dele, e foi massacrado como um Orfeu,
em meio a vaias a apupos. Revidou à altura: "Se vocês forem em política como
são em estética, estamos feitos. O Júri é simpático mas é incompetente!".
Na segunda fase, no Maracanãzinho, seria a vez de Vandré. Em meio à repressão
política imposta pelo regime militar, ele falava de flores vencendo canhões, e
em morrer pela Pátria a viver sem razão. No final, ordens de cima: obrigaram a
Globo a não dar a vitória a Vandré. Ele não poderia ganhar esse festival de
jeito nenhum. A despeito da qualidade, o público não aceitava "Sabiá", de Chico
Buarque e Tom Jobim. Vandré, por sua vez, era o gênio incompreendido, o
menestrel das flores, um Guevara com um violão dois acordes e uma mensagem
"subversiva".
A reação do público estremeceu os militares. Não ganhou. A platéia estava
encantada com o ar de fauno triste do revolucionário Vandré enquanto o júri
preferiria a sofisticação da melodia de Tom. Porém, uma outra "força maior" os
ajudava nesse sentido. Dessa vez, o próprio compositor defenderia "Caminhando",
enquanto as meninas do Quarteto em Cy cantavam a música de Tom e Chico. O
ginásio inteiro entoou grossa vaia quando o júri preteriu as flores e os
canhões de Vandré e escolheu "Sabiá" - uma dissimulada canção de protesto -
como a vencedora. Oficialmente derrotado desta vez, Vandré engoliu a sua
decepção e a do público, que se solidarizou com ele, e bradou: "A vida não se
resume a festivais. Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque de Hollanda merecem
toda a nossa consideração".
Segundo o jornalista, historiador e autor do livro "A ERA DOS FESTIVAIS", Zuza
Homem de Melo, o que acabou com a Era dos Festivais foi, além do esgotamento do
modelo, o gradativo esvaziamento, causado tanto pela intervenção dos militares
no conteúdo das canções quanto no desencanto de muitos compositores com o jogo
de cartas marcadas - sem falar na transformação do espírito do festival, cujo
gosto musical passava a ser ditado por gravadoras e editoras, senão pelas
próprias emissoras.
Além do mais, a maioria dos autores havia saído do Brasil. A Globo conseguiu
manter o evento por mais três anos, mais por conta da audiência e pelo tom do
espetáculo do que da velha disputa ou a revelação de novos talentos.
O último foi o Festival Internacional da Canção, em setembro de 1972, Na fase
nacional, o vencedor foi Jorge Ben com "Fio Maravilha", defendida por Maria
Alcina e "Cabeça", de Walter Franco. "Cabeça" foi declarada a campeã pelo
primeiro júri, que foi dissolvido. Nara Leão, que era presidente do júri, não
poderia aparecer na tevê, sob ordens "de cima". Nara havia criticado a situação
brasileira, semanas antes, tornando-se persona non grata. Todo o corpo de
jurados tomou suas dores, e o júri se amotinou e se auto dissolveu.
Escandalizados, os militares entenderam que tal manobra era "antipatriótica" e
"subversiva". Em cima da hora, foram escolhidos jornalistas estrangeiros para
compor um novo corpo - dessa vez, "isento". No fim, só quem reclamou foram os
defensores de Walter Franco que, sem entender nada, acharam que a troca dos
jurados foi apenas para prejudicá-lo.
No total, entre 1960 e 1966, foram realizados oficialmente catorze festivais,
realizados entre as emissoras Excelsior, Record e Globo.
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Texto baseado no livro "A ERA DOS FESTIVAIS", de Zuza Homem de Melo
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